2015-03-05

Antes e Depois


No site da BBC News, vi neste artigo esta sequência de imagens


Dizem no artigo que nem precisaram de programa de editar fotos, ao fim de duas horas, de uns exercícios ligeiros, de um creme para dar um tom mais bronzeado, de uma melhor postura corporal e de uma iluminação adequada, sem consumirem nenhuma pílula nem seguirem uma dieta milagrosa, conseguiram estes resultados espectaculares!

2015-03-03

Vestido de cores ambíguas


Tem-se falado muito da imagem deste vestido que apareceu na internet, não sei bem aonde.



O motivo da discussão é a diferença das cores vistas por diferentes pessoas, olhando para a mesma imagem, no mesmo monitor.

Há quem veja branco e dourado enquanto outros vêem azul e preto.

A BBC fez um pequeno vídeo onde mostra isso mesmo.

Eu próprio já constatei a diferença entre mim e outras pessoas, olhando para esta imagem num mesmo monitor.

E quem vê duma maneira, mantém essa maneira ao longo do tempo.

A questão da cor do vestido é importante porque embora já soubéssemos que existem ilusões de óptica, essas ilusões enganam toda a gente mais ou menos da mesma maneira


Neste caso o nosso cérebro faz uma conjectura baseada na experiência (“educated guess”) sobre a natureza da luz que ilumina o vestido, essa conjetura é para nós inconsciente mas neste caso dramaticamente relevante e duas pessoas olhando para o mesmo objecto vêem cores completamente diferentes, abalando a nossa crença na objectividade da nossa visão.

A Wired escreveu sobre este fenómeno, assim como a Scientific American.


Para eu ver as cores do vestido mais parecidas com a realidade precisei de ajustar a imagem, por exemplo para ela ficar assim:

2015-02-27

Grécia e Três Graças


        


Voltei-me a cansar dos termos em que é discutida a crise Grega, da contabilidade de cedências pelas partes em confronto. Usam também uma técnica retórica clássica que consiste em atribuir ao adversário opiniões que ele não defende para depois ou atacar essas opiniões ou dizer que o adversário já mudou de opinião. A outra técnica é referir a nossa opinião como a “realidade”, confundindo a natureza imutável por exemplo das leis da fisica ou as relações matemáticas com as “leis económicas” onde a vontade e psicologia humanas têm em grande número de casos um papel muito importante.

Em relação à semana passada por um lado parece-me que o Syriza exagerou na agressividade da abordagem aos países do Eurogrupo. Por outro lado considero monstruosas algumas das medidas tomadas na Grécia sob pressão da troika, designadamente a lei em que os desempregados perdem o acesso ao Sistema Nacional de Saúde poucos meses depois de ficarem  no desemprego e a circunstância de 300 000 famílias não terem meios para pagar a conta da electricidade.

Só para corrigir estas duas situações completamente aberrantes, “olimpicamente” ignoradas pela direita que aparece na TV portuguesa a falar sobre a crise grega, já valeria a pena ter escolhido o Syriza para governar a Grécia. O Eurogrupo concedeu algum tempo ao governo grego e aguardemos pelo desenrolar dos próximos capítulos.

A propósito deste tema não consigo deixar de pensar no Amartya Sen e no seu livro “Poverty and Famines, An Essay on Entitlement and Deprivation”, um livro que referi aqui.

Uma das teses interessantes de Amartya Sen é que nas democracias não se morre à fome porque os governantes têm pressões fortes para não deixar morrer os seus eleitores.

Neste caso grego parece-me que a União Europeia se tem comportado como  uma potência colonial, por exemplo como  a Inglaterra em relação à fome de Bengala em 1945. A democracia “ressuscitou” na Grécia indo provavelmente evitar que os desempregados quando doentes não tenham assistência médica, que morram à fome, que fiquem sem casa e que não possam aceder à electricidade.

Quando se observa a mudança de opinião recente de Vítor Bento em relação a várias características da política económica prevalecente na União Europeia existem razões para acreditar que outros economistas e políticos poderão também mudar de opinião e que pode ocorrer uma inflexão em vários aspectos da política actualmente em vigor.


Dado que há tanta gente a falar sobre estes temas vou mudar de assunto mostrando esta bela imagem


que vi nesta referência a uma exposição no lendário hotel Mamounia de Marraquexe.

Cheguei a ela por um caminho improvável que começou a propósito dos 50 anos da morte de Winston Churchill e de se falar das suas pinturas e do seu gosto pela luz de Marraquexe, passando pelo seu relacionamento com o poeta e pintor marroquino Hassan el Glaoui de quem é esta imagem bem como a que se segue, com cavalos em movimento. Os azuis da primeira pintura fizeram-me pensar na casa azul dos jardins da Majorelle



Na exposição do Mamounia mostram também este quadro que Churchill pintou em Marraquexe



Nesta divagação fui dar ao site da filha do pintor marroquino que se chama Ghizlan el Glaoui e que também se dedica à pintura.

Gostei desta imagem de mulher com cabelo cor de fogo que vi no site da pintora



mas ao ver no mesmo site esta variante do famoso quadro de Vermeer, “Rapariga com brinco de pérola” ou talvez da foto da Scarlett Johansson no filme que contribuiu para uma ainda maior fama do referido quadro




fiquei a pensar que possivelmente o quadro de cima também seria uma variante doutro quadro famoso. Procurei no Google as “Three Graces” referidas na imagem e fui dar a um dos detalhes famosos do quadro da Primavera de Botticelli com as 3 graças, passando a mostrar primeiro o quadro




seguido de um detalhe com as Três Graças




onde constatei que as imagens do site da pintora que mostro em  baixo são realmente variações  ou reinterpretações das Graças de Botticelli:



Diz na Wikipédia que as Graças são:
- Ἀγλαΐα (Aglaia- ‘a resplandecente’, ‘a que brilha’, ‘a ‘a esplêndida’) era a mais jovem e bela das três Graças,  simbolizando a inteligência, o poder criativo e a intuição do intelecto;
- Εὐφροσύνη (Euphrosina- personificação da alegria);
- Θαλία (Tália- em inglês diz que era a deusa da abundância, dos banquetes, em português que era a deusa do brotar das flores.

Não consigo distinguir quem é qual.

Estas imagens de Ghizlan el Glaoui, se bem que inspiradas pelas graças de Botticelli, não são uma cópia. Não sei como se chama uma reinterpretação de uma pintura, como é feito aqui. Suponho que seja muito mais complexo do que o simples uso de umas ferramentas informáticas que transformam uma fotografia numa aguarela, numa pintura a óleo, etc.

A divisão em quadrados das imagens fez-me pensar nos mosaicos bizantinos e nas suas interpretações contemporãneas, como por exemplo do cipriota George Kotsonis que referi aqui.

Acho positiva esta entrada de marroquinos pela representação pictórica de seres humanos, o risco destas imagens se tranformarem em ídolos é verdadeiramente pequeno.

E gostei de falar da influência das civilizações do Mediterrâneo na nossa visão do mundo.

2015-02-22

Tradição Sikh em socorro dos sem-abrigo britânicos


Chamou-me a atenção este artigo da BBC onde referem que muitos sem-abrigo em Londres são alimentados pela comunidade Sikh que, além de fornecer comida quente nos seus templos, quer na Índia quer na Inglaterra quer onde eles se situem, criou um serviço de carrinhas para chegar a um maior número de pessoas sem-abrigo.

É irónico que na capital da antiga metrópole do grande Império, as deficiências do Estado Social da Grã-Bretanha, para cujo desmantelamento muito contribuiu Margareth Thatcher, que manifestava abertamente a sua antipatia por estrangeiros, que essas deficiências sejam agora parcialmente minimizadas por tradições de culturas das ex-colónias, vindo agora os descendentes de anteriores imigrantes salvar da fome os cidadãos britânicos sem distinção de origem étnica ou profissão religiosa, à semelhança das actividades de caridade cristã, comuns na Europa e noutras partes do mundo.

Esta tradição Sikh chamada Langar, de dar comida a quem tem fome, é referida também aqui. Esta tradição será provavelmente tributária do Sufismo islâmico da ordem Chisti.

Deixo duas fotos que tirei em Abril/2001 do templo Sikh Gurdwara Bangla Sahib, situado ao pé de Connaught Place em Nova Deli, onde também serviam refeições vegetarianas gratuitas, primeiro uma das entradas do templo, depois o lago para abluções.








Mostro também o mausoleu de Salim Chisti em Fatehpur Sikri que fui buscar à wikipédia.



Em tempos referi o trabalho maravilhoso em mármore deste mausoleu neste post.


2015-02-18

Na Europa temos abundância de crises


Lembrei-me disso a propósito da crise actual envolvendo a Grécia e deste mapa da Europa em 1648,



após a Paz de Vestefália que pôs fim à guerra dos 30 anos e que julgo que retirei dum post do Paulo Pinto que agora não consigo localizar.

Também falando sobre História esteve Helmut Schmidt neste discurso em Berlim em 4/Dez/2011 que já referi aqui e cujo texto integral a Shyznogud colocou aqui.



2015-02-14

Vítor Bento e os economistas com fé inabalável


Estava à espera dum dilúvio de comentários na comunicação social sobre o ensaio que o Vítor Bento publicou no Observador em 8/Fev/2015 mas no dia 10/Fev só lia o espanto (parece-me que justificado) do Nicolau Santos no Expresso. Apareceram posteriormente comentários no próprio Observador, outro no Público de Francisco Louçã mas muito poucos artigos com destaque nos restantes jornais. Mostro o resultado duma busca que fiz com o Google no dia 10/Fev



Parece-me estranho este silêncio sepulcral sobre a inflexão na opinião de Vítor Bento, baseada na observação dos péssimos resultados dos programas de austeridade impostos pela União Europeia aos países deficitários.

Na Ciência ocidental, a partir de observações estabelecem-se teorias e eventualmente realizam-se testes, observando-se depois a realidade para ver se a teoria é válida ou não.

Na Economia deveria ser também assim, se bem que com maior dificuldade em fazer e interpretar os resultados dos testes. Parece que Vítor Bento pertence à muito pequena minoria de economistas que se interessam pela realidade e pela verificação dos resultados dos programas de acção económica. A grande maioria dos economistas do pensamento único usa a Economia como um substituto da Religião, em que basta ter uma crença forte no pensamento dominante que nos ensinaram na universidade. Se a realidade não confirma a teoria bastará esperar mais algum tempo, para que a crença que nos ensinaram mostre que está certa. É um raciocínio semelhante aos dos comunistas que sempre estiveram seguros que a experiência russa iria dar certo, era só ter paciência para esperar pelos amanhãs que cantavam.

Para compensar a falta de cor-de-rosa na realidade ecomómica dos países deficitários da Europa deixo mais outra foto da Beira-Tejo em 26/Dez/2014, onde pelo menos a paisagem é rica nessa cor.




2015-02-09

Mais vale tarde do que nunca, Vítor Bento


Finalmente Vítor Bento escreveu um ensaio sobre a Eurocrise em que foca a atenção sobre a impossibilidade da existência de um mundo em que todos os países tenham excedentes no seu comércio com os outros!

Não me esqueço do contragosto manifestado por Durão Barroso, quando ainda presidente da comissão, de ter tido que levantar um processo à Alemanha por  desequilíbrio continuado do seu comércio externo, como por exemplo neste relatório. Dizia ele num à parte que gostaria que todos os desequilíbrios que tivesse que estudar fossem do tipo de excedente, como era o caso da Alemanha.

Em tempos escrevi um post sobre este tema, aqui. Claro que toda a gente sabe isto mas parece que o pensamento actualmente dominante prefere ignorar sistematicamente que ter excedentes é tão insustentável como ter déficits.

Foi assim com muito gosto que li o ensaio de Vítor Bento publicado no "Observador", onde se pode ler:

«
...


Esta forma de ajustamento tem, portanto, envolvido uma efectiva transferência de bem-estar social (incluindo emprego) dos Deficitários para os Excedentários. E aqui reside a grande falha da argumentação moral que tem subjazido à condução do processo, pois que não são os Excedentários que têm estado a sustentar o bem estar dos Deficitários, mas o contrário. Nestes termos, a justiça do processo de ajustamento em curso só poderia ser restabelecida com uma transferência efectiva de recursos (e não de empréstimos) dos Excedentários para os Deficitários.

...
»



2015-02-04

Grécia ou a existência de opiniões diversas na Europa


É muito difícil uma pessoa avaliar situações complexas como a da Grécia.

Sabendo que estou a ser bombardeado por meios de comunicação em que uma boa parte está mais interessada em fazer propaganda do que em revelar-me a realidade, presto atenção aos indícios reveladores que me vão aparecendo.

No caso da Grécia considero particularmente revelador que a anterior maioria tenha aprovado uma lei em que os desempregados perdem o acesso ao Sistema Nacional de Saúde poucos meses depois de ficarem  no desemprego. É uma lei iníqua sem justificação económica razoável. Os sistemas de saúde devem ter finanças equilibradas havendo sempre a necessidade de definir quais os tratamentos que são economicamente viáveis e quais os que não o são. Mas excluir cidadãos do acesso ao sistema nacional de saúde, pelo facto de estarem desempregados, é condenar à doença os desempregados pobres, negando-lhes a solidariedade dos outros cidadãos. Reduzir um pouco o nível de cuidados para toda a gente de forma a poder acolher todos os cidadãos é a única forma decente de resolver eventuais desequilíbrios entre receitas e despesas. Existem assim formas alternativas de resolver desequilíbrios, ao  contrário do que tanta gente nos tenta convencer.

Uma das melhores ilustrações de que existem opiniões diversas sobre assuntos económicos nas instituições da Europa, ao contrário do que tanta direita portuguesa nos pretende fazer crer, é esta foto de Mario Draghi, presidente do BCE, e do nosso Ministro das Finanças, Wolfgang Schauble, captada na reunião do FMI em Washington em 10-Out-2014, da Bloomberg e publicada por Maxime Sbaihi aqui:



Agora quando andei à procura no Google/Imagens da origem desta foto que na altura guardara no meu PC apareceu-me este resultado curioso da pesquisa, em que a primeira página de resultados é ocupada exclusivamente por sítios escritos em grego, mostrando a sensibilidade dos gregos à existência de opiniões diversas na Europa:



No meio disto fui dar a este site interessante com notícias sobre a Grécia, The Press Project – Greek News for a Global Audience com este video em que Obama diz à Alemanha que os gregos estão numa depressão económica, não podem ser mais espremidos.

É natural que a electricidade seja cortada a clientes que não paguem, dado que a electricidade não é gratuita. Mas já não é natural que 300.000 famílias gregas não tenham dinheiro para pagar a conta de electricidade, não é certamente assim que se consegue aumentar a competitividade de um país. É vergonhoso que se tenha chegado a esta situação e este é mais um indício da natureza errada das políticas aplicadas na Grécia.



2015-01-27

Ricardo Paes Mamede




O programa "Prós e Contras" da RTP1 teve ontem momentos altos como o desta intervenção de Ricardo Paes Mamede que fui buscar ao blogue "Ladrões de bicicletas". O programa merece ser revisto, para quem tiver essa possibilidade, contando também com boas intervenções do embaixador Francisco Seixas da Costa.




Demorei demasiado tempo a aperceber-me que quem cai no desemprego na Grécia, passados alguns meses, deixa de ter acesso ao Sistema Nacional de Saúde, uma medida tomada pelo governo grego para satisfazer uma das exigências da Troika.

Não preciso de saber mais nada para concluir que a União Europeia não conseguiu respeitar os seus princípios, impondo à Grécia condições vergonhosas e inúteis sem um mínimo de decência.

2015-01-25

Resistir à mudança da Grécia


Agora que o Syriza ganhou as eleições gregas está na altura de as forças da direita, que clamam tanto contra as resistências às mudanças por elas desejadas, não resistirem a esta mudança considerada necessária pela maioria do povo grego.

Em Dezembro de 2009 tirei esta foto no interior do novo Museu da Acrópole em Atenas:





2015-01-15

Beira-Rio (Tejo)


Passei bem o ano mas comecei mal, com um ataque de Zona (herpes zoster) no lado esquerdo da cara.

Deixo uma imagem tranquila dum fim-de-tarde à beira-rio tejo, tirada no dia 26-Dez do ano passado.




2014-12-31

Boa Passagem


No Japão gostam imenso de portões, assinalando que se está a passar duma área para outra. É portanto uma boa metáfora para a passagem de um ano para o seguinte.

Proponho assim este portão do palácio Imperial de Kyoto, para comemorar a passagem hoje à meia-noite para um novo ano, que faço votos para que seja melhor do que o que passou.



A grande quantidade de símbolos imperiais, a flor estilizada de 16 pétalas referida aqui, não deixa qualquer margem para dúvida que este portão tem a ver com o imperador do Japão.

Mostro a seguir o mesmo portão mas em maior detalhe



destacando a seguir um dos grous e uma borboleta azul



e finalizando com um dragão e um tigre.



Boa passagem de ano!




2014-12-29

Prisão preventiva


Gostei muito do texto do Miguel Sousa Tavares no jornal Expresso de 27/Dezembro com o título “A prisão e o poder”, a propósito das prisões preventivas decretadas pelo tão famoso juiz Carlos Alexandre no processo em que José Sócrates é um dos arguidos.

Passo a transcrever uma parte próxima do princípio, embora o artigo mereça uma leitura completa:

“… Não quer dizer que me oponha à prisão preventiva ou que não entenda a sua necessidade e fundamento em determinadas situações, apenas que não abdico da exigência de que ela seja absolutamente excepcional e fundamentada. Na minha maneira de ver, a prisão preventiva serve, nomeadamente, para que um marido que já agrediu a mulher e prometeu matá-la, não fique em liberdade para cumprir a promessa, como várias vezes vimos suceder. Mas não pode servir, por exemplo, para facilitar a investigação ou pressionar os presos preventivos a confessarem o que se pretende, desse modo dispensando a investigação de mais trabalhos e canseiras. ...”

Quando leio textos nos jornais sobre assuntos em que sou especialista assusto-me por vezes com os erros clamorosos que são publicados, compreendendo que as instituições da justiça receiem as distorções que os intermediários poderão fazer ao seu discurso.

Porém agora existe a internet e os tribunais podiam e deviam publicar comunicados para que o cidadão comum compreendesse, nos casos de interesse público mais geral, as razões de absurdos aparentes que ocorrem com excessiva frequência, como por exemplo quando a ex-ministra Leonor Beleza foi acusada de ter tentado com dolo prejudicar os doentes hemofílicos.

Este comportamento da Justiça (das suas instituições), em que implicitamente nos diz “confia em mim”, e os julgamentos que terminam tantas vezes em absolvições ou em prescrições, como tão recentemente no caso dos submarinos, leva-me actualmente a duvidar da capacidade da Justiça em provar, num número excessivo de processos, a existência de crimes, recorrendo assim à prisão preventiva, ou a acusações absurdas como no caso dos hemofílicos, como uma forma de punir pessoas de quem desconfia, mas que se sente incapaz de condenar de acordo com procedimentos rigorosos.

Gosto de acompanhar os textos deste blogue de imagens, ou as imagens com textos, neste caso foi um pouco mais difícil. Depois ocorreu-me o Palácio Imperial em Kyoto (será que com a introdução do k, y e w esta grafia passou a ser adequada?) que em certa medida é uma das “prisões” da família imperial japonesa, que tem contudo jardins lindíssimos. Na imagem mostro o pátio, fechado por muitas portas, onde por vezes o imperador preside a cerimónias,

no topo da escadaria que se vê ao fundo, naquele pavilhão com um telhado enorme.

Na imagem seguinte que fui buscar ao Google vê-se que a área rectangular do palácio imperial (dimensões cerca de 700 x 1300 metros) difere muito da área urbana que a rodeia.


O alinhamento rigoroso de um dos lados do rectângulo com a direcção Norte-Sul é um indício muito forte de que, quando a área do palácio foi delimitada, os japoneses determinavam com grande rigor as direcções dos pontos cardeais.

Parece-me um indício quase tão plausível como a prisão preventiva do motorista de José Sócrates ter sido usada como forma de pressão para obter declarações. O próprio professor Marcelo referiu essa possibilidade no seu comentário televisivo de 21/Dezembro, usando a figura de estilo que “isso não lhe passava pela cabeça”.

2014-12-22

Postal de Boas-Festas e Maternidade (chinesa)



A civilização ocidental tem uma relação muito forte com as artes plásticas em geral e com a pintura em especial. Quer a igreja, quase único cliente dos artistas durante séculos, quer depois as classes abastadas, quer finalmente a classe média através dos museus, tem assegurado uma procura sustentada, que será de menor dimensão em muitas outras culturas.

Nas religiões monoteístas a presença de representações de figuras humanas dentro de templos tem encontrado fortes resistências, por exemplo no Islão, que se dedicou a figuras  geométricas e/ou  do reino vegetal e também na cristandade, onde ocorreram os movimentos iconoclastas antes do ano mil e as críticas de diversas igrejas protestantes desde a Reforma.

Contra esta tendência tem a Igreja Católica mantido uma grande abertura à presença de estátuas e de quadros dentro de locais de oração, considerando que, desde que obedeçam a algumas regras, são uma forma de ajudar os crentes que contemplam as figuras a rezar.

Quando a igreja sai da Europa encontra convenções visuais diferentes das europeias e torna-se necessário um trabalho de adaptação, para que o crente não seja distraído na oração por elementos exóticos para a sua cultura.

Achei por isso muito interessante este “achinesamento” da Maria mãe de Jesus mais o seu filho enquanto menino, conforme se constata na figura a seguir, transmitindo a ideia que a realidade histórica de Maria e Jesus como membros do povo judaico não é essencial, eles podem ser representados como membros de qualquer povo pois todos os povos são bem vindos à religião cristã.


Já a tendência para a representação da mãe de Jesus como uma rainha, ou neste caso como uma imperatriz me parece mais questionável. Tenho a noção que o amarelo/dourado era uma cor reservada para uso do imperador da China na dinastia Qing (Manchu) bem como reservada era a figura do dragão decorando o tecido. Maria está sentada no que parece um trono imperial. Esta representação pode ser criticada partindo da frase de Jesus: “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”, separando assim a hierarquia religiosa da hierarquia do Estado. No entanto, agora que já não existe imperador na China, a representação pode ser interpretada simplesmente como a atribuição de importância a Maria e a Jesus.

Não me lembro de ver um menino Jesus com chapéu, nem tão pouco Maria, que costuma ter apenas um véu a cobrir a cabeça. Acho graça à transparência das auréolas.

Esta imagem apareceu-me num postal de Boas-Festas que me enviaram este ano, possivelmente um sinal da importância que os negócios com a China estão a assumir em Portugal. Com a ajuda do Google images localizei esta imagem de melhor qualidade do que a que me enviaram aqui.

O autor da pintura é Chu Kar Kui, um chinês de Hong-Kong.

A imagem apareceu-me também neste sítio, com uma descrição das dificuldades da introdução do cristianismo na China.

A Wikipédia tem uma entrada sobre a Controvérsia dos ritos na China.

Nestes posts deste blogue mostrei variações das representações de Cristo na cruz.

Aproveito a oportunidade para desejar Boas Festas e um Feliz Ano de 2015 aos leitores deste blogue.

2014-12-20

Localização insensata


É insensato colocar uma placa anunciando o que quer que seja mesmo em frente de uma passagem de peões. Os peões devem estar concentrados no trânsito antes e quando atravessam e não devem ser distraídos por cartazes publicitários!

Figura mostra o cartaz estrategicamente colocado na Rua Cidade de Bissau, nos Olivais Sul.



2014-12-15

Final do Outono


Este Outono tem sido mais chuvoso do que a média, os relvados dos Olivais Sul estão muito verdejantes. As árvores do bairro lá vão deixando cair as folhas com grande vagar e os choupos estão finalmente a ficar predominantemente amarelos, conforme se constata nesta imagem de 13 de Dezembro de 2014:



2014-12-08

Imaculada Conceição



É provável que muita gente já não se aperceba do que se comemora no dia 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição.

Um dos motivos talvez seja a evolução ortográfica do Português que passou a usar “Conceição” em vez de Concepção, quando se referindo a Maria, mãe de Jesus, também a Maria da Concepção Imaculada ou, abreviadamente, Maria da Conceição. Existindo alguma abundância de “Marias da Conceição” em Portugal a palavra “Conceição” foi perdendo a associação a “Concepção”.

A ideia de que Maria foi concebida sem pecado não quer dizer que os pais pecaram ou deixaram de pecar quando a conceberam mas que ao ser concebida apareceu logo sem a mancha do pecado original tema que já abordei aqui, sobre o pecado propriamente dito e sobre o Fim do Trabalho.

Houve grandes discussões entre teólogos cristãos sobre este assunto, discussões que foram encerradas pelo papa Pio IX, definindo a Imaculada Concepção de Maria como dogma de fé em 8 de Dezembro de 1854.

Andei à procura na net de uma imagem da Imaculada Conceição do pintor espanhol Murillo, que tinha apreciado muito quando fui pela primeira vez a Madrid, numa excursão do liceu, teria então 17 anos.

Encontrei com facilidade a imagem que procurava, que mostro a seguir


chamada “La _Inmaculada_Concepcion_de el_Escorial”, executada  em 1660-1665 e que fui buscar aqui.

A rapariga que serviu de modelo para a pintura era muito jovem e o penteado, longos cabelos lisos caindo sobre os ombros, era muito adequado aos sixties que então decorriam, conforme se constata neste detalhe da pintura acima


Passei pela referência a outra Imaculada Conceição do mesmo pintor Murillo dita “de los venerables“, roubada pelo general Soult quando da invasão da Espanha pelas tropas napoleónicas, comprada depois pelo museu do Louvre e trocada, já no século XX, por outra obra do museu do Prado.

Entretanto lembrei-me de outra imagem, "La Vierge au Lys", que tinha há algum tempo para publicar, da Virgem com o menino Jesus, pintada pelo académico Bouguereau


com as peles acetinadas, os ombros que seriam ebúrneos se estivessem visíveis, as mãos tocando no menino Jesus que parece ser oferecido à adoração pela mãe, de modos e olhar recatado.

Para finalizar deixo uma imagem que ilustrou há uns anos uma crónica da Rititi no Diário de Notícias, em que ela se queixava de sobrecarga de trabalho quando chegava a casa e ainda tinha uma data de coisas para fazer,


onde se via a Nossa Senhora também ocupada nas lides caseiras, deixando a coroa, o manto e o terço no bengaleiro, com o coração brilhando através da t-shirt e constatando que não chegara a tempo de evitar que o cozinhado esturrasse.

2014-12-04

Sancionar e sanções


Num livro sobre o Judaísmo que li recentemente dizia a certa altura que a Bíblia sancionava qualquer coisa que, eu sabia ser uma aprovação. Pensei que seria uma tradução literal do inglês pois em português associava a palavra a reprovação.

Mas fiquei a remoer o tema e foi-se tornando cada vez mais evidente que em português "sancionar" tanto pode significar aprovação como aplicação de uma penalidade.

Revoltei-me então contra os juristas por usarem uma palavra como antónimo de si mesma.

Na internet descobri o termo "contronym" que se traduz facilmente para português como "contrónimo", referido aqui e também na wikipedia.

E tomei nota da citação do ciberdúvidas: «The word contronym (also antagonym) is used to refer to words that, by some freak of language evolution, are their own antonyms. Both contronym and antagonym are neologisms; however, there is no alternative term that is more established in the English language»

Acho graça à expressão "freak of language evolution", no entanto acho estranho que em inglês, em francês, em espanhol e em português esta ambiguidade exista.

Por exemplo em relação a "esquisito", conforme referi neste post com um lindo vestido vermelho a desanimadora evolução do significado de "esquisito" na língua portuguesa não foi acompanhada de evolução semelhante nas línguas de países próximos.

Entretanto fiz uma conjectura que me satisfez, o significado inicial de sancionar seria exclusivamente de aprovação.

O que se passou foi que a autoridade “usava mais o pau do que a cenoura”. Embora por vezes aprovasse uma lei ou uma regra que devia ser seguida pelos súbditos, a maior parte das vezes sancionava a aplicação de penalidades, castigos, etc. A coisa foi de tal ordem que embora a palavra tenha mantido o uso erudito de aprovação, o significado que agora predomina é o de aplicação de penalidades. E nesse aspecto estamos em pé de igualdade com vários países ocidentais. É interessante constatar essa evolução semântica em paralelo de vários países.

Mesmo sem internet os juristas de diferentes países lá foram comunicando. Mas é uma situação infeliz, os juristas deveriam ter lutado mais contra esta evolução semântica.


Ao pensar numa imagem para acompanhar este texto encontrei esta “La reproduction interdite”, pintada por Magritte em 1937.

Se considerarmos que um antónimo é uma espécie de reflexo num espelho da palavra original, quando o antónimo é o mesmo do original obtemos uma imagem como esta acima.

Curiosamente o livro reflecte bem, só o homem é que é problemático.

2014-11-29

Beira-Tejo em 19/Out/2014


Há cerca de um mês fui dar um passeio à beira-Tejo a partir do Terreiro do Paço em direcção ao Cais do Sodré, no espaço finalmente rearranjado da Ribeira das Naus. Estava um fim de tarde magnífico, com uma temperatura muito agradável para a época, uma imensidão de passeantes e turistas sentados a contemplar o rio que parecia um lago.

Já ao pé do Cais do Sodré estava este cais flutuante, em tempos construído pela Mague, empresa metalomecânica vítima do processo de desindustrialização do país, julgo que encerrou em 1996.



No pontão ligando o cais à margem estavam vários fotógrafos de atenção predominantemente focada no sol poente


que bem valia uma foto, como se constata a seguir



2014-11-22

Os Outonos da Europa


Aqui em Lisboa é preciso uma paciência de chinês para se observarem verdadeiras cenas de Outono, designadamente as folhas amarelas, alaranjadas, cor-de-cobre ou avermelhadas das nossas árvores.

Como o tempo arrefece muito devagarinho as folhas vão amarelecendo e caindo em pequena quantidade o que faz que as árvores não apresentam uma grande quantidade de folhas de tons quentes, com poucas excepções, designadamente os ginkgos bilobas.

Tive uma reunião no dia 7/Nov em Chantilly (o creme do mesmo nome foi inventado na Itália e não lá) , uma pequena povoação uns 60km a norte de Paris onde fotografei umas árvores já completamente desfolhadas em contra-luz num pôr-do-sol. Havia ainda muitas folhas noutras árvores, talvez estas fossem mais batidas pelo vento, talvez seja uma foto mais apropriada para ilustrar o Inverno mas aqui fica a imagem:




dois dias depois, no dia 9/Nov, já em Lisboa, gostei deste arvoredo na quinta do Contador-mor nos Olivais Sul de que dou uma vista abrangente



mostrando depois um zoom da mesma foto




e ainda mais zoom




Chegado aqui tenho que reconhecer que o Outono deste ano em Lisboa tem sido bastante chuvoso, até já tivemos umas inundações em sítios inesperados, talvez tenha sido essa abundãncia de água que tenha ajudado esta exuberãncia vegetal, mas neste dia o Sol tinha regressado e fiquei a pensar que estava perante um verde sobre azul.


Assim, para ver as cores de Outono a meio do Outono sem ter que esperar pelo fim da estação, uma pessoa vê-se forçada a recorrer à observação de outras paragens, designadamente as alemãs, onde a Helena nos presenteia mais uma vez com imagens lindíssimas.

Fui buscar a seguinte, de uma enorme delicadeza e complexidade, aqui




e esta outra, com a simplicidade do ouro sobre azul, aqui:




P.S. Bem, hoje ao circular por Lisboa constatei que afinal já se vêem bastantes folhas outonais. Mas as verdes ainda são a maioria.